Era o Brasil da vogal aberta contra a Alemanha das vogais fechadas e a sucessão de consoantes. Eles não sambam. Usam os indicadores. Mas nem precisaram deles. Com os pés, a meticulosidade característica e o toque de bola objetivo, vertical, eles nos colocaram na roda e... sambamos. Sambamos não para inglês ver, mas para 2 bilhões de pessoas em todo o mundo. E, sabe como é... brasileiro veste a camisa na Copa por que, no fundo, sabe que é hora da forra. É hora de mostrar para o mundo que somos bons, muito bons em alguma coisa. Mas que VE-XA-ME! Mas que vexame?
Não começamos a ser observados apenas agora. Estamos sob a lupa mundial desde 13 de junho. Mesmo antes disso, o mundo incluiu nossa agenda futebolística em seus assuntos internacionais. E olha lá o Brasil lado a lado com um novo escândalo de espionagem nos EUA e mais um acirramento dos conflitos no Oriente Médio. E não, não foi vexame algum. Exceto por alguns contratempos. Mas podemos dizer que o Brasil surpreendeu ao mundo com organização. Organização sim. Nossa organização e o calor humano, que já havíamos esquecido, mas que não se apagou. Mais que isso. Olhou-se no espelho e não acreditou no que viu. Era muito melhor do que se imaginava.
Em boa medida, ao contrário do que pode apregoar gente com interesses duvidosos, a esquizofrenia que se abateu sobre a imprensa e uma parte da sociedade brasileira com o prenúncio da aproximação do mundial tinha a ver com o inevitável. O Brasil está longe de superar seu complexo de inferioridade, sua síndrome de vira-lata perante o mundo. De onde vem esse complexo? Perguntem a Nelson Rodrigues. Comparar o Brasil com o mundo do ponto de vista econômico, social e político é um exercício imprescindível para avaliarmos nossa evolução, nossa colocação, nosso rumo. Mas, levado ao extremo, esse nosso tique, espécie de fetiche masoquista, fez de nós piores. Muitas vezes não precisamos distinguir ou buscar apenas semelhanças. São as diferenças que fazem de uma nação um povo coeso com identidade. E eis que veio a Copa para nos obrigar a olhar no espelho. No início não aceitamos. Mas, pouco a pouco, o reflexo entrou por nossas retinas. Que agradável surpresa. Não chore Brasil!
E ora, vejam só que ironia, o país que apostava suas fichas no futebol, afinal o que mais teríamos a oferecer? Essa Copa serviu para mostrar que temos muito mais a oferecer. A malícia deliciosa de Pelé, Garrincha, Neymar e David Luiz seguirão pelo mundo, fascinando, inspirando e reverberando nossa identidade. E, quem sabe agora, sem o peso de carregar um país nas costas, nossos próximos Pelés e Garrinchas se sintam mais soltos, menos pressionados. Prontos para conquistar o mundo. Não com cara feia, expressão tensa. Mas com tendões aliviados, músculos sorridentes, esqueletos com gingado. Vai que dá Brasil! Dá para ser Brasil, sem medo.
Não chora Brasil! A entrada criminosa em Neymar restou sem punição. Tudo bem. Hoje, somos um país capaz de colocar políticos corruptos atrás das grades. A impunidade ainda supera de longe a justiça. Mas um avanço considerável para quem nunca o havia feito em 500 anos. Não chora Brasil! Não deu em campo. Mas somos capazes e articulados para armar movimentos politizados, enigmáticos, desconcertantes como as Manifestações de Junho. Hoje é dia de chorar. Enxugar as lágrimas de cada garotinho e garotinha. Contar a eles a história de um país imenso que se achava pequeno. Mas amanhã é dia de levantar a cabeça e seguir em frente. Afinal, é apenas futebol. E nessa matéria Nelson Rodrigues é craque. Já resolveu o caso: trata-se da coisa mais importante das coisas desimportantes! De fato, passou a ser. Não precisamos mais dele para nos medir na régua mundial.
