Vou abrir um parêntese no blog e falar um pouco de liberdade. Não da liberdade de ir, vir, pensar e ser. Mas da liberdade que quase não nos damos de enxergar o outro e, nele, nós mesmos. Joões de Barro e outros contos jornalísticos foi, até aqui, minha incursão mais profunda no jornalismo. Uma viagem reflexiva e instigante que surgiu meio por acaso no segundo ano de faculdade.
Era começo de 2006. Na pia inundada de louça suja de uma república de estudantes, me veio à memória a intrigante história dos operários de uma cerâmica de tijolos de minha cidade natal, Bandeira do Sul. Durante décadas de funcionamento, os trabalhadores cumpriam uma sina aparentemente comum para quem observava de dentro: começavam a trabalhar cedo, enveredavam-se pelo alcoolismo, ou morriam ou tornavam-se inválidos. O Ciclo vicioso cumpria-se a cada nova geração.
Era começo de 2006. Na pia inundada de louça suja de uma república de estudantes, me veio à memória a intrigante história dos operários de uma cerâmica de tijolos de minha cidade natal, Bandeira do Sul. Durante décadas de funcionamento, os trabalhadores cumpriam uma sina aparentemente comum para quem observava de dentro: começavam a trabalhar cedo, enveredavam-se pelo alcoolismo, ou morriam ou tornavam-se inválidos. O Ciclo vicioso cumpria-se a cada nova geração.
Num estalo daqueles parecidos com o que Nelson Rodrigues descreveu como 'óbvio ululante', percebi o incomum naquilo que as décadas haviam banalizado. Decidi que escreveria um livro-reportagem como projeto experimental, o equivalente ao Trabalho de Conclusão de Curso. O projeto era irresistível, em especial para alguém que retrataria a sina cumprida pelo próprio pai, trabalhador da cerâmica e alcoólatra, filho de Manuel Vaz, outra vítima do álcool e um dos fundadores da cerâmica.
Fiquei quase um ano refletindo sobre como contar a história e manter-me minimamente isento, não vislumbrei essa possibilidade. Para piorar, tinha na consciência um problema ainda mais grave. Um estudante de jornalismo, com seus minguados 21 anos, não teria maturidade nem fôlego suficientes para dar ritmo, consistência, e a profundidade merecidos à uma tragédia muito semelhante à morte dos severinos de João Cabral de Melo Neto. Com a diferença que a sina dos severinos os guiava por um caminho de seca, fome e desesperança até a morte morrida, quando não matada. Já a sina dos Joões os sequestrava por um suicídio psicológico, pela aniquilação de suas personalidades e, finalmente, para a miséria da ausência de sentidos.
O desafio era enorme e não podia negligenciar o fato de que não possuía o fôlego de um romancista, nem o olhar treinado de um jornalista vivido. Foi da releitura de Dom Casmurro, e seus capítulos independentes, e da lembrança sempre viva dos contos de Fernando Sabino que brotou uma aparente solução: e se deixasse de lado a profundidade do romance e partisse para o dinamismo assertivo do conto, mas menos exigente? Foi o que fiz. Mas a responsabilidade ainda parecia pesar sobre os ombros.
Parti então para um trabalho um tanto mais conceitual, uma série de contos reais com o objetivo de retratar o dia-a-dia banalizado de Joões, Josés e Marias que não aparecem nas páginas dos jornais, nem mesmo nas colunas manchadas de sangue da ‘Vida como ela é” de nossos tempos espetaculosos. Os Joões de Barro ganharam a companhia de treicheiros, travestis e homossexuais, num esforço de reportagem para ao mesmo tempo descortinar o cotidiano de personagens caricaturados pela sociedade e mostrar como banalizamos de forma cruel o nosso dia-a-dia ao ignorarmos nossos semelhantes.
Em um tempo tão contraditório, em que redes sociais servem-nos de espelhos com alcance ilimitado para o narcisismo nosso de cada dia, republico aqui o encerramento do livro-reportagem. Uma análise sobre a liberdade de enxergar o trivial e encantar-se com ele, como diria Hélio Pelegrino, em sua libérrima existência e total e gratuita inutilidade. Sob a perspectiva de um escritor atormentado, David Foster Wallace. Logo ele, que anulou os próprios sentidos em 2008, nos fez um alerta com tom de premonição:
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| David Foster Wallace, o escritor atormentado pela depressão
tentou nos alertar sobre a ausência de sentidos
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Há algo de incomum no trivial?
Três anos antes do 12 de setembro de 2008, dia em que enforcou-se, num discurso como paraninfo dos formandos do Kenyon College, em Gambier (Ohio - EUA), David Foster Wallace, um dos mais festejados escritores de sua geração, falou sobre “a liberdade de enxergar o real e o essencial, escondidos na obviedade ao nosso redor”.
Wallace, sob os efeitos da depressão que o perseguiu durante duas décadas e que o levou ao suicídio, verbalizou uma pungente reflexão que questionava a ótica da qual visualizamos o mundo. Para ele, tendemos a ver o mundo através de nosso umbigo, pois essa é nossa configuração padrão. E, apesar dessa postura ser confortável e gerar-nos satisfação pessoal, ela é responsável pelo imenso vazio, formado quando descobrirmos que as imagens que criamos através dessa perspectiva unilateral e egocêntrica, não chegam nem perto do mundo real. Pior, passa muito longe de nós mesmos.
Não se trata aqui de angular uma reflexão a partir de uma já surrada constatação filosófica: a de que o essencial permanece em baixo de nossos narizes, enquanto admiramos paisagens espetaculosas com nossa visão distorcida. Cabe nesse encerramento, alertar para o imenso vazio de sentido que tem se instaurado em nosso meio. Vazio que está diretamente ligado à inexistência de objetivos reais de compreensão do ser-humano.
O escritor e filósofo tratou de esclarecer aos formandos que não se tratava de uma visão mística da vida, apenas da constatação do óbvio.
E, para essa constatação, não é necessário empreender nenhuma grande reflexão filosófica. Basta olharmos para o lado e notar que o mundo em que habitam Joões, Josés, Ma-rias, homens e mulheres de carne e osso são tão interessantes quanto nosso pequeno mundinho e tem problemas igualmente graves e urgentes. E, só então, descobrirmos que quando olhamos para os outros, olhamos para nós mesmos, porém, de forma mais aberta e profunda. É assim que o ser-humano explica-se, trocando experiências. Mesmo que só observando-as.








