Milhões de brasileiros vão às urnas neste domingo e a sensação que tenho é que nossa democracia enfrentará seu mais duro teste desde que voltamos a escolher nossos governantes. O resultado que emergir das urnas terão tido uma influência importante da mídia, mas vai espelhar também o reflexo de uma luta de classes cuja volta foi anunciada por André Singer e sua recorrência está registrada em nossos livros de história, com notado destaque na Era Vargas e nos anos que precederam os governos militares.
Como bem disse Jânio de Freitas, em artigo publicado neste domingo na Folha, a divisão geográfica do país coloca Sul e Sudeste ricos e desenvolvidos, dando as cartas na política e na economia, contra Norte e Nordeste excluídos. Não que a contraposição seja uma regra ou necessária. Mas ela existe e é do interesse de alguns grupos que ela permaneça mesmo num contexto em que ficou provado que o Brasil do Norte e Nordeste não subtraí, mas soma à competitividade, ao vigor e à inovação produtiva.
Para não entrarmos na surrada análise da macroeconomia e da política externa submissas que prega o conservadorismo brasileiro, hoje projetado num playboy disfarçado de bom moço, basta analisarmos o discurso utilizado pela pobre oposição protagonizada pelo PSDB: ódio, descrença no futuro, preconceito, autoritarismo e monopólio da verdade. Todos signos do fascismo. O discurso é sustentado no baixo crescimento da economia, na suposta deterioração das contas públicas e nos casos de corrupção que afloram aqui e acolá.
Ora, mesmo sob o baixo crescimento, a bem da verdade vitaminado pela crise mundial e pela redução da demanda por commodities principalmente do mercado chinês, o emprego e a renda dos brasileiros foram não apenas preservados, avançaram e avançam a um ritmo sustentável. A desigualdade social e a pobreza vivem curvas descendentes. A economia caminha para se recuperar no médio e longo prazo e será beneficiada pelos investimentos em infraestrutura feito no governo Lula e principalmente no governo Dilma. Os investidores sabem disso. Sabem tão bem, que aproveitaram a histeria dos investidores nacionais com as eleições para comprar grandes lotes de ações da Petrobras. Tanto que desde que teve início a corrida presidencial, apesar do sobe e desce provocado pelas pesquisas, as ações da estatal tiveram valorização de um terço.
E a corrupção? Se por um lado o Partido do Trabalhadores se provou corruptível como qualquer outra organização política, também foi o primeiro que, estando no poder, permitiu que integrantes de sua cúpula fossem investigados, julgados e punidos. Esse pode ser considerado o maior avanço institucional desde a redemocratização, apesar dos exageros de Barbosa. Por que poucas pessoas reconhecem isso? Temos exemplos de incontáveis investigações que governos anteriores mandaram engavetar. Desde a criminosa Privataria Tucana, a compra da reeleição até a o Mensalão Tucano, que certamente terminará com todos os envolvidos soltos devido à prescrição do processo.
Em 12 anos, o Brasil se tornou a sétima economia do mundo, se projetou internacionalmente, combateu a pobreza como nenhum outro país havia feito na história, e quem diz isso é a ONU, somos complexados demais, preconceituosos demais para reconhecer. Mas a narrativa que nossa imprensa reproduz é diametralmente oposta. Por conveniência da enorme servidão aos patrões que as redações dos grandes veículos sempre foram, defende-se o rigor e a visão até negativa como indícios bem-vindos de imparcialidade. Fica na sombra o que realmente importa. A imparcialidade é uma ferramenta a serviço da verdade, não é um fim em si mesmo. O jornalista não persegue a imparcialidade, ele deve perseguir a verdade e ela está, emoldurada pelos fatos, carecendo de análises e luzes interpretativas desses profissionais.
O clima beligerante projetado pela distorção narrativa e pelo negativismo refletido sobre a prática política pode gerar instabilidades institucionais a partir desta segunda-feira. Caso se confirme os prognósticos de uma eleição apertadíssima, os conservadores ou os progressistas poderão ir às ruas em protesto. Capas forjadas como a de Veja, o veículo que se autodeclara o paladino da liberdade de expressão, de inciativa e de mercado, não contribui em nada para o amadurecimento da democracia brasileira. Repete episódios sórdidos do nosso jornalismo autocrata, quem não se lembra ou não ouviu falar da lamentável edição que a Rede Globo fez do debate decisivo entre Lula e Collor em 1989? A eleição termina hoje, mas o teste para a solidez de nossas instituições começa no momento seguinte à declaração do resultado final do confronto.
