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domingo, 26 de outubro de 2014

O mais duro teste desde a redemocratização

Milhões de brasileiros vão às urnas neste domingo e a sensação que tenho é que nossa democracia enfrentará seu mais duro teste desde que voltamos a escolher nossos governantes. O resultado que emergir das urnas terão tido uma influência importante da mídia, mas vai espelhar também o reflexo de uma luta de classes cuja volta foi anunciada por André Singer e sua recorrência está registrada em nossos livros de história, com notado destaque na Era Vargas e nos anos que precederam os governos militares.

Como bem disse Jânio de Freitas, em artigo publicado neste domingo na Folha, a divisão geográfica do país coloca Sul e Sudeste ricos e desenvolvidos, dando as cartas na política e na economia, contra Norte e Nordeste excluídos. Não que a contraposição seja uma regra ou necessária. Mas ela existe e é do interesse de alguns grupos que ela permaneça mesmo num contexto em que ficou provado que o Brasil do Norte e Nordeste não subtraí, mas soma à competitividade, ao vigor e à inovação produtiva.

Para não entrarmos na surrada análise da macroeconomia e da política externa submissas que prega o conservadorismo brasileiro, hoje projetado num playboy disfarçado de bom moço, basta analisarmos o discurso utilizado pela pobre oposição protagonizada pelo PSDB: ódio, descrença no futuro, preconceito, autoritarismo e monopólio da verdade. Todos signos do fascismo. O discurso é sustentado no baixo crescimento da economia, na suposta deterioração das contas públicas e nos casos de corrupção que afloram aqui e acolá.

Ora, mesmo sob o baixo crescimento, a bem da verdade vitaminado pela crise mundial e pela redução da demanda por commodities principalmente do mercado chinês, o emprego e a renda dos brasileiros foram não apenas preservados, avançaram e avançam a um ritmo sustentável. A desigualdade social e a pobreza vivem curvas descendentes. A economia caminha para se recuperar no médio e longo prazo e será beneficiada pelos investimentos em infraestrutura feito no governo Lula e principalmente no governo Dilma. Os investidores sabem disso. Sabem tão bem, que aproveitaram a histeria dos investidores nacionais com as eleições para comprar grandes lotes de ações da Petrobras. Tanto que desde que teve início a corrida presidencial, apesar do sobe e desce provocado pelas pesquisas, as ações da estatal tiveram valorização de um terço.

E a corrupção? Se por um lado o Partido do Trabalhadores se provou corruptível como qualquer outra organização política, também foi o primeiro que, estando no poder, permitiu que integrantes de sua cúpula fossem investigados, julgados e punidos. Esse pode ser considerado o maior avanço institucional desde a redemocratização, apesar dos exageros de Barbosa. Por que poucas pessoas reconhecem isso? Temos exemplos de incontáveis investigações que governos anteriores mandaram engavetar. Desde a criminosa Privataria Tucana, a compra da reeleição até a o Mensalão Tucano, que certamente terminará com todos os envolvidos soltos devido à prescrição do processo.

Em 12 anos, o Brasil se tornou a sétima economia do mundo, se projetou internacionalmente, combateu a pobreza como nenhum outro país havia feito na história, e quem diz isso é a ONU, somos complexados demais, preconceituosos demais para reconhecer. Mas a narrativa que nossa imprensa reproduz é diametralmente oposta. Por conveniência da enorme servidão aos patrões que as redações dos grandes veículos sempre foram, defende-se o rigor e a visão até negativa como indícios bem-vindos de imparcialidade. Fica na sombra o que realmente importa. A imparcialidade é uma ferramenta a serviço da verdade, não é um fim em si mesmo. O jornalista não persegue a imparcialidade, ele deve perseguir a verdade e ela está, emoldurada pelos fatos, carecendo de análises e luzes interpretativas desses profissionais.

O clima beligerante projetado pela distorção narrativa e pelo negativismo refletido sobre a prática política pode gerar instabilidades institucionais a partir desta segunda-feira. Caso se confirme os prognósticos de uma eleição apertadíssima, os conservadores ou os progressistas poderão ir às ruas em protesto. Capas forjadas como a de Veja, o veículo que se autodeclara o paladino da liberdade de expressão, de inciativa e de mercado, não contribui em nada para o amadurecimento da democracia brasileira. Repete episódios sórdidos do nosso jornalismo autocrata, quem não se lembra ou não ouviu falar da lamentável edição que a Rede Globo fez do debate decisivo entre Lula e Collor em 1989? A eleição termina hoje, mas o teste para a solidez de nossas instituições começa no momento seguinte à declaração do resultado final do confronto.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Brasil no espelho: um fiasco em campo, vida que segue

Lágrimas, desânimo, olha-res perdidos, queixos embasbacados. Pouso Alegre parou para ver o escrete verde-ama-relo e terminou a terça-feira lacônica, melancólica como todo o país. A incredulidade misturou-se com as incertezas que já nos perturbam há um bom tempo. Quando chega a hora da verdade quem tem coragem de encarar os fatos? Chuteira de trava de alumínio em riste. Artérias expostas em alto-relevo. Cara feia. Cara excitada. Cara de guerreiro. Cara de medo. Cara de espanto. Apatia.  Era a hora. Era Brasil e Alemanha. Era Brasil sem Neymar. Não era a final. Mas era a grande prova de fogo. Somos tupiniquins. Somos vira-latas? Somos Macunaíma? Nossa Copa é tão boa quanto a da Alemanha? Nossa bola supera a técnica fria dos europeus? Eis que a bola rola e as questões começam a ser respondidas. E como dói, por vezes, saber a verdade. Mas para quem vive de boas intenções, há nos fatos fagulhas de esperança. Vai que dá Brasil! Não deu! Pior, foi um Mineiraço, muito menos edificante, porém, que o Maracanaço de 1950. Sete. Sete? A um...



Era o Brasil da vogal aberta contra a Alemanha das vogais fechadas e a sucessão de consoantes. Eles não sambam. Usam os indicadores. Mas nem precisaram deles. Com os pés, a meticulosidade característica e o toque de bola objetivo, vertical, eles nos colocaram na roda e...  sambamos. Sambamos não para inglês ver, mas para 2 bilhões de pessoas em todo o mundo. E, sabe como é... brasileiro veste a camisa na Copa por que, no fundo, sabe que é hora da forra. É hora de mostrar para o mundo que somos bons, muito bons em alguma coisa. Mas que VE-XA-ME! Mas que vexame?

Não começamos a ser observados apenas agora. Estamos sob a lupa mundial desde 13 de junho. Mesmo antes disso, o mundo incluiu nossa agenda futebolística em seus assuntos internacionais. E olha lá o Brasil lado a lado com um novo escândalo de espionagem nos EUA e mais um acirramento dos conflitos no Oriente Médio. E não, não foi vexame algum. Exceto por alguns contratempos. Mas podemos dizer que o Brasil surpreendeu ao mundo com organização. Organização sim. Nossa organização e o calor humano, que já havíamos esquecido, mas que não se apagou. Mais que isso. Olhou-se no espelho e não acreditou no que viu. Era muito melhor do que se imaginava.

Em boa medida, ao contrário do que pode apregoar gente com interesses duvidosos, a esquizofrenia que se abateu sobre a imprensa e uma parte da sociedade brasileira com  o prenúncio da aproximação do mundial tinha a ver com o inevitável. O Brasil está longe de superar seu complexo de inferioridade, sua síndrome de vira-lata perante o mundo. De onde vem esse complexo? Perguntem a Nelson Rodrigues. Comparar o Brasil com o mundo do ponto de vista econômico, social e político é um exercício imprescindível para avaliarmos nossa evolução, nossa colocação, nosso rumo. Mas, levado ao extremo, esse nosso tique, espécie de fetiche masoquista, fez de nós piores. Muitas vezes não precisamos distinguir ou buscar apenas semelhanças. São as diferenças que fazem de uma nação um povo coeso com identidade. E eis que veio a Copa para nos obrigar a olhar no espelho. No início não aceitamos. Mas, pouco a pouco, o reflexo entrou por nossas retinas. Que agradável surpresa. Não chore Brasil!

E ora, vejam só que ironia, o país que apostava suas fichas no futebol, afinal o que mais teríamos a oferecer? Essa Copa serviu para mostrar que temos muito mais a oferecer. A malícia deliciosa de Pelé, Garrincha, Neymar e David Luiz seguirão pelo mundo, fascinando, inspirando e reverberando nossa identidade. E, quem sabe agora, sem o peso de carregar um país nas costas, nossos próximos Pelés e Garrinchas se sintam mais soltos, menos pressionados. Prontos para conquistar o mundo. Não com cara feia, expressão tensa. Mas com tendões aliviados, músculos sorridentes, esqueletos com gingado. Vai que dá Brasil! Dá para ser Brasil, sem medo.

Não chora Brasil! A entrada criminosa em Neymar restou sem punição. Tudo bem. Hoje, somos um país capaz de colocar políticos corruptos atrás das grades. A impunidade ainda supera de longe a justiça. Mas um avanço considerável para quem nunca o havia feito em 500 anos. Não chora Brasil! Não deu em campo. Mas somos capazes e articulados para armar movimentos politizados, enigmáticos, desconcertantes como as Manifestações de Junho. Hoje é dia de chorar. Enxugar as lágrimas de cada garotinho e garotinha. Contar a eles a história de  um país imenso que se achava pequeno. Mas amanhã é dia de levantar a cabeça e seguir em frente. Afinal, é apenas futebol. E nessa matéria Nelson Rodrigues é craque. Já resolveu o caso: trata-se da coisa mais importante das coisas desimportantes! De fato, passou a ser. Não precisamos mais dele para nos medir na régua mundial.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Será que engrenou?

Brincar de jogar bola.  Chaleira, carretilha, chapéu. Toque curto, giro. Cara feia? Dá-lhe um, dois lençóis. Neymar precisou de um tempo e meio para encarar os grandalhões de Camarões com leveza, ginga e aquela molecagem do futebol que é marca registrada dos craques brasileiros. Se todo menino é um rei. Neymar foi rei nessa segunda-feira. Empurrado por um camaronês na linha de fundo, com a bola já fora de jogo, Neymar se revoltou. Levantou-se. Recusou o aperto de mão de seu algoz. Vingou-se. De uma roubada de bola de Luiz Gustavo, que arrancou pelo fundo e passou a bola açucarada para o craque, Neymar deu um tapa de rosca. Canto esquerdo do goleiro. Brasil abria o placar. Porteira aberta...

Nos minutos seguintes, porém... Sob os gritos de “O CAMPEÃO VOLTOOOU!”, entoados pelos 70 mil torcedores que lotavam o Mané Garrincha, na capital federal, a seleção cambaleava em campo. Não lembrava nem de longe uma campeã. Mas um escrete que dependia demasiadamente de seus talentos individuais. Ou melhor, do seu maior talento individual. Sem jogo coletivo, sem transição no meio campo. Nossa seleta dupla de zaga, o gigante David Luiz e o confiável Thiago Silva, rifavam a bola como quem se livra de uma batata quente. Os laterais Marcelo e Daniel Alves apoiavam com ineficiência. Marcavam destrambelhados.  Na Doutor Lisboa lotada, a dúvida surgia. “O que há com essa seleção que não engrena?”. Ansiedade? Ainda?

Camarões pressionava. Escanteios em série pela direita. Jogo cantado, mas eficiente. Nas costas do lateral Marcelo. Bola para área. Sufoco. Bola na trave. Escanteio de novo. Bola na área. A zaga finalmente vence uma. Sobra dos camaroneses. Jogada de linha de fundo, pela esquerda. Daniel Alves, sempre destrambelhado na marcação, se joga num carrinho suicida. Leva a melhor... não! Bate-rebate. O camaronês Nyom leva a melhor. Fica sozinho no fundo para cruzar. Bola rasteira na área. Nem David, nem Thiago, nem Júlio. Matip , sozinho para empurrar a bola para rede. Silêncio de 70 mil torcedores no Mané. Respiração presa na Avenida Doutor Lisboa. “Essa seleção não engrena!”

Olho de torcedor não fala. Dá indícios. Quem antes fitava o telão da Avenida entregue à hipnose. Começa a desviá-lo da tela. Nega-se a ver a história que se desenha. Seleção perdida em campo. Chutões que iam e voltavam em forma de ataque camaronês. Mas futebol não é lógico. E, vez ou outra, é praticado por jogadores como Neymar. Imprevisível. Cheio de recursos. O Brasil não jogava bem. Não achava os adversários com segurança na marcação. Tampouco via seus homens de frente se entenderem. Marcelo pegou a sobra. Passou para Neymar, que avançou na diagonal rumo ao bico da grande área. Cortou para a direita. Acompanhado por dois zagueiros. Chutou com sua assinatura. Chute rasteiro, seco. Passou entre as pernas dos marcadores. Ludibriado, o goleiro Charles Itandje foi para a direita. Mal viu a bola entrar no meio do gol. Em trajetória oposta ao seu salto para o vazio.

Fim do primeiro tempo. Neymar garantia a vitória brasileira e o primeiro lugar no grupo. Estávamos, por enquanto, livres de enfrentar a Holanda, nosso carrascos mais recentes. O resultado nos conduzia para um duelo latino-americano contra os chilenos. A matemática, no entanto, não disfarçava o desconforto. Um Brasil irregular assim, tem chances? A questão certamente pesou nos pensamentos de Felipão. O técnico trouxe Fernandinho para o lugar de Paulinho no segundo tempo. Deu certo. O Brasil virou conjunto. Fazia naturalmente o que antes era árduo. A bola ia de pé em pé no meio de campo. E, de pé em pé,  passou por Neymar, Oscar, Fernandinho, David Luiz, Fred e gol. O camisa 9 desencantou em uma cabeceada facial após cruzamento certeiro da esquerda executado pelo zagueiro. O alívio se misturou à esperança. Afinal, pode ser que engrene!

Neymar, muito provocado e perseguido em campo,  respondia as provocações com dribles. Willian estava pronto para substituir Oscar. Mas, num encontrão, Neymar foi ao chão. Não dá para arriscar. Com medo de contusão ou de que o craque tomasse seu segundo amarelo, Felipão, cauteloso, mudou no último segundo a alteração. Saiu o 10. Ovacionado. Entrou Willian. E faltava uma última troca de passes para comprovar. Sim, talvez tenhamos um time. Oscar, Fernandinho, Fred, Oscar, Fernadinho, biquinho para o gol. A troca de passes mais bonita da partida encerrou a goleada. O Brasil agora pega o Chile nas oitavas de final. O jogo é no próximo sábado (28), às 13h. Aqui em Minas. No Mineirão. Teremos um time? O time de Neymar? Os próximos cinco dias serão de expectativa.

domingo, 22 de junho de 2014

Heringer se diz vítima de farsa e aprofunda cisma entre PSB e Rede em Minas

“Lamento que a terceira via no Brasil esteja se afundando. Me sinto vítima de uma farsa dentro dessa convenção e não participaremos desta festa sem princípios políticos”. A afirmação grave é do médico e ambientalista Apolo Heringuer. O integrante da Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, anunciou na sexta-feira a retirada de seu nome como uma das alternativas para a candidatura própria do PSB em Minas. A sigla abriga desde o ano passado nomes da legenda idealizada por Marina Silva, que não conseguiu formalizar seu partido a tempo de concorrer ao Planalto nas eleições de 2014. Em uma costura inesperada, Marina anunciou que concorreria como vice do peessebista Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, alçado pela imprensa à condição de único nome capaz de rivalizar com a polarização PT X PSDB na corrida pela Presidência. À decisão de Marina, que vitaminou a pré-candidatura do pernambucano, seguiu-se uma grande dúvida: até onde Marina e seus correligionários da Rede, que sustentam a proposta de renovação da política brasileira, cederiam a práticas já perpetuadas no presidencialismo de coalizão e aos inúmeros vícios da política regional no país sem que essa cessão maculasse as ideias que dizem defender, em nome da aliança?

Pois a corda foi esticada ao máximo com a decisão quase certa do PSB de apoiar candidaturas estaduais de outras legendas nos três maiores colégos eleitorais do país. No Rio de Janeiro, a sigla estará  no palanque do PT, de Lindbergh Farias. Em São Paulo, no do tucano Geraldo Alckmim. Em Minas, depois de ser dada como certa a candidatura própria, no final de semana em que ela seria ratificada, quando os peessebistas escolheriam entre Heringer e o deputado estadual Júlio Delgado, aliado de longa data do tucano Aécio Neves, a decisão foi adiada ontem, em Belo Horizonte. Foi, antes, precedida da desistência de Heringuer e conformada pela defesa da reedição da aliança com o PSDB mineiro. Maior expoente da sigla em Minas, Márcio Lacerda bate tambores pela tese. E, mesmo Júlio Delgado, atesta que a aliança em anos anteriores enrobusteceu as bancadas estadual e federal da legenda.

Na dobradinha nacional entre Eduardo Campos e Marina Silva, a Rede defende desde o início do casamento político mais celebrado dos últimos tempos: palanques próprios nos estados, especialmente nos colégios eleitorais de maior peso e prestígio, fortaleceriam a candidatura de terceira via, ajudariam a superar o problema do pouco tempo de TV e legitimaria uma das grandes críticas feitas pelos postulantes ao Planalto: o fisiologismo. Para Marina, no Brasil, alianças são feitas à revelia de programas de governo e nas sombras da busca insana pelo tempo de propaganda eleitoral e de cargos na máquina pública. 

Até aqui, com Eduardo Campos patinando nas pesquisas, as ideias oxigenadas da Rede sendo suplantadas pelas ligações regionais do PSB e petistas e tucanos contribuindo à sua maneira para a rivalização social na política, pouco espaço resta para a terceira via. E o debate político corre o risco de ficar ainda mais pobre.

A decisão final em Minas ficou a cargo da executiva estadual, que tem até 29 deste mês, data da convenção nacional da legenda, para anunciar o veredito. A comissão executiva estadual do partido é formada por 11 pessoas, entre elas Delgado e o presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil.

Em tempo: A Rede Sustentabilidade divulgou nota à imprensa neste domingo em defesa da candidatura própria. Leia íntegra:

Nota da Rede Sustentabilidade sobre candidatura em Minas Gerais

A Rede Sustentabilidade sempre defendeu a construção de candidaturas estaduais que expressem claramente as propostas do projeto nacional representado pela candidatura de Eduardo Campos e Marina Silva. Com esse objetivo, apresentamos o nome de Apolo Heringer Lisboa como contribuição para o debate e levado como alternativa à Convenção do PSB em Minas Gerais.

Apesar da desistência de Apolo Heringer, a Rede Sustentabilidade reafirma sua posição favorável à candidatura da aliança PSB-Rede em Minas Gerais e espera que essa decisão prevaleça no âmbito da Comissão designada pela Convenção do PSB.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Crônica do jogo: contra a muralha, faltou inspiração

Os fogos ao final do jogo poderiam confundir. Mas que nada. O Brasil parou em um desinteressante empate sem gols contra a seleção mexicana. Que pena Neymar e companhia terem passado em branco. A Avenida Doutor Lisboa lotou para ver o escrete verde-amarelo. Animados, milhares. Travestidos de ufanismo. Uniformizados de brasileiros. Dedos cruzados. A esperança de ver um jogo menos tenso. Mais fácil. Menos angustiante que a estreia irregular. Mas o México. Os atuais campeões olímpicos. Lembra como esmagaram o Brasil de Neymar, Oscar e Lucas nas Olimpíadas de Londres? Ergueram uma verdadeira muralha para mais uma vez parar Neymar, Oscar e companhia. Bom, pode chamar a muralha de Ochoa. O goleiro mexicano fez ao menos duas defesas milagrosas. Uma delas lembrou, quem diria, a histórica defesa do inglês Gordon Banks na Copa de 1970. Banks defendeu uma cabeceada a queima-roupa de ninguém menos que o Rei. Quase foi preciso tirar o bola de dentro do gol. Ochoa fez parecido com uma cabeceada certeira de Neymar. E as semelhanças com o que há de melhor na história do futebol param por aí.

No segundo jogo do Brasil na Copa do Mundo foi tudo mais tranquilo. A Avenida Doutor Lisboa voltou a ser fechada de manhã. Mas, desta vez, com mais bom-senso, apenas um quarteirão. O que não causou maiores transtornos para o trânsito. A exemplo da partida de estreia, a partir das 14h, os pouso-alegrenses começavam a se agrupar para acompanhar mais uma etapa da saga canarinha. O trânsito pesou. As buzinas foram acionadas. Mas, prova de que a tensão começa a baixar, não soavam impaciência, mas cantarolavam alegria. Era um buzinaço pré-festivo. Pouco antes do início do jogo, mais um quarteirão da avenida foi fechado. A tensão de estreia da torcida se esvaiu. Quem sabe na esteira do coro mal-educado que entoou ofensas à presidente Dilma Rousseff no Itaquerão. Quem sabe não precisávamos da radicalização para perceber que o que é feio e deselegante é sempre feio e deselegante. O Brasil relaxou.

Em campo, relaxamos até demais. O jogo começou morno. Mais uma vez, não conseguimos repetir o “abafa” da Copa das Confederações. Pelo contrário, na maior parte do primeiro tempo, foi o México quem pressionou com eficiência. Nem mesmo o combustível extra dado pela torcida de Fortaleza, que inaugurou a versão em capela do hino nacional ano passado durante a Copa das Confederações e fez o mesmo na partida desta terça-feira (17), foi suficiente para empurrar o ataque brasileiro. Pouco inspirado. Sem nenhuma criatividade. Neymar ensaiava arrancadas. Era desarmado. Oscar enfiava uma ou outra bola para Fred. O centroavante não dominava. Tanta irregularidade começou a formar um protagonista inesperado. Ochoa. A muralha do México. Neymar, não com os pés, mas com a cabeça. Ganhou de Rafa Marques. Foi no terceiro andar. Cabeceou forte. Com estilo. A meia altura. No canto. A Brazuca teria entrado. Mas Ochoa não defendeu. Tirou o gol. Era um presságio. Mais que isso. Foi o grande lance do jogo.

Além de não conseguir pressionar o México. Nem com a marcação. Nem com o ataque. O Brasil dava espaço. Muito espaço. Com chutes de fora da área. Sempre bem colocados. O México assustava. Mas, ainda assim, o jogo parecia que deslancharia a favor do Brasil. Fim da primeira etapa. Era certo que o canários da Granja Comary voltariam impetuosos na segunda etapa. Mas o segundo tempo, de novo, não foi como se esperava. Depois de uma primeira etapa irregular, a seleção voltou desencontrada. Tomou sufoco dos mexicanos até os 20 minutos. Felipão sacara Ramires no intervalo. O meia já somava um cartão amarelo. No lugar, colocou aquele que, em suas palavras, “tem alegria nas pernas”. Bernard. Mas as pernas do mirrado camisa 20, não estavam mais alegres que as dos companheiros. Em uma tentativa final, Felipão tirou seu centroavante de confiança. Saiu Fred. Entrou o objetivo e forte Willian. Que também não foi mais forte e objetivo que o restante do grupo.

Mas e o nosso craque? Onde estava Neymar. Não é nessas horas que um craque se consagra. E bem poderia ter sido o dia do nosso 10. Mas não foi. Era o dia de Ochoa. Neymar colocou a bola na cabeça de Thiago Silva em uma bola parada cruzada na área. Thiago, na pequena área. De frente para a meta. Cabeceou fulminante. A queima-roupa. O tiro parou na muralha. Num lance de reflexo, Ochoa rebateu a bola que, a bem da verdade, vinha em sua direção. Outra bola cruzada na área. Neymar matou a bola no peito. Com aquela conhecida classe dos craques made in Brazil. A redondinha foi parar carinhosa no gramado. Pronta para ser chutada pelo jovem gênio. Aquele chute estiloso. De peito de pé. Batida firme. Que quase sempre encontra o caminho das redes. Quase sempre... Ochoa. Ele de novo. Bola rebatida. 0 a 0.

E, por pouco, no finalzinho do jogo, os mexicanos não amargam ainda mais o início da noite no Brasil. Contra-ataque rápido. Troca de passes objetiva. Por duas vezes. Primeiro com Guardado, depois com Gimenes. Dois chutes ameaçaram a meta guardada por Júlio César. A primeira passou por sobre o travessão. A segunda parou em grande defesa do goleiro brasileiro. E não é que poderia ter sido pior? A essa altura ninguém apostaria na desclassificação do Brasil. Um empate contra Camarões, e até mesmo uma derrota, dependendo da combinação de resultados, classifica o escrete. Mas não foi por isso que, ao final da partida, algumas pessoas soltaram fogos. Ou foi? Ou há quem torça contra? Contra a seleção ou contra a Copa? Protesto? Talvez não passe de ruído de uma terça-feira em que não estivemos nem um pouco inspirados.

domingo, 15 de junho de 2014

Ibis Hotels lança empreendimento de R$ 65 milhões na segunda

Destino de grandes investimentos em seu parque industrial e no segmento de serviços, Pouso Alegre colhe alguns reflexos de sua expansão econômica em um boom imobiliário sem precedentes que, em alguns casos, chega a inflacionar o setor. É nesse ambiente de aquecimento econômico e efervescência no mundo dos negócios que o grupo Arccor lança, nesta segunda-feira (16), o Ibis Hotels, um novo conceito de investimento imobiliário que pode gerar boas oportunidades para quem quer investir sem ter “dor de cabeça”, com retornos considerados acima da média. Nesta modalidade, o investidor adquiri apartamentos e, ao invés de inquilinos, ele passa a ter hóspedes. O empreendimento será construído no quilômetro 793 da Rodovia Fernão Dias, próximo ao SerraSul Shopping.

O projeto prevê investimento de R$ 65 milhões. Serão seis pavimentos com 20 apartamentos de 17 metros quadrados cada. A inauguração está prevista para o segundo semestre de 2015. O Ibis Hotels de Pouso Alegre integra os planos de expansão da Arccor no Brasil. “O grupo tem crescido muito nos últimos anos e, atualmente, nossas marcas estão presentes em 78 cidades. Em 2017 estaremos em 121, com previsão de abertura de mais 130 hotéis”, disse Abel Castro, diretor de desenvolvimento para novos negócios na América Latina, em recente entrevista à revista Exame. O Ibis Hotels será o primeiro com bandeira internacional do município.

A crônica da estreia

Um trecho da Avenida Doutor Lisboa amanheceu fechado nesta quinta-feira (12). Era o início dos
preparativos de um dos eventos criados na cidade para que os pouso-alegrenses pudessem acompanhar o primeiro jogo do Brasil na Copa. Mas muitos motoristas ficaram irritados com a medida. Algumas horas depois, no entanto, a situação já era mais tranquila. Pouso Alegre começava a entrar no clima da Copa do Mundo. A tensão política e social atravessada pelo país era mais e mais abafada a medida que o início do jogo se aproximava. Na TV, iniciava a festa de abertura. As ruas começavam a se esvaziar. Bares, casas de shows que organizaram eventos para o jogo recebiam os primeiros clientes. Famílias e amigos se reuniam em seus pontos de encontro. Olho grudado na tela da TV. Por 90 minutos, o Brasil seria de novo o país do futebol, vivendo a magia de uma Copa do Mundo realizada em solo tupiniquim. Será? E é como se fosse a primeira vez. Em 1950, pouquíssimas pessoas acompanharam. A TV só havia chegado ao Brasil um ano antes. Ainda não éramos campeões do mundo. Muito menos conhecidos como habitantes da terra do futebol. Não existia internet, redes sociais, nem brasileiros mobilizados para protestar nas ruas.

Por décadas, o futebol foi considerado o esporte onde o Brasil se destacava como potência mundial. Mas, agora, só isso não basta. Nem por isso, entretanto, o país deixou de ter orgulho de sua seleção. Não deixou de torcer pelo escrete. Sentimento visto à flor da pele no jogo nervoso contra a Croácia. A cada bola dividida e ganha. Cada jogada de perigo, contra ou a favor. As milhares de pessoas que acompanhavam a partida de estreia na Avenida Doutor Lisboa suspiravam ansiedade e alívio. Surpreendida pelo gol adversário, a torcida se calou. O suspiro já não vinha. A tensão irradiava pressão pelos músculos e anunciava a tragédia. Já convencidos de que o país não soube organizar o evento, aliás “deveríamos mesmo tê-lo organizado?”. Muitos acham que não. Com tantos problemas por serem resolvidos na saúde, na educação, no transporte público. Nossos problemas de infraestrutura... Perdemos tantos anos planejando um evento padrão FIFA. Mas a raça de Oscar, a empatia de Neymar com a bola... O nosso camisa 10 recebeu o presente do armador, conduziu a bola como se rabiscasse um rascunho de uma tela prestes a ser preenchida em cores, bateu rumo a meta. Chute certeiro. Sorrateiro. Venceu o gigante Croata que guardava a baliza. A redondinha beijou a trave e entrou. Voltávamos a ser o país do futebol.

O primeiro tempo se encerrou com domínio brasileiro. A tensão teimava em incomodar os torcedores que lotavam a avenida. Mas uma certa confiança reaparecia. Brasil, potência do futebol. E o gol foi de Neymar. Nossa joia mais valiosa. Não parece um enredo perfeito? E tem mais. Em 2002, quando chegamos ao penta. No primeiro jogo, contra a dura Turquia, também saímos perdendo. Viramos. Não dá pra torcer sem ser superstição. E o grande dogma do torcedor é esse. Se deu certo uma vez, vai dar sempre.

O segundo tempo começou como uma reprise do primeiro. Apesar de melhor postada em campo, a seleção continuava ansiosa. Os passes errados se seguiam. A etapa derradeira já se aproximava do meio, quando Fred, em uma bola cruzada na área, se jogou como de costume e pelo oportunismo de sempre. Entre dois zagueiros, porém. O juiz deu pênalti. O replay mostrou que os croatas pouco encostaram em Fred. Murmúrios e balbucias “a Dilma já comprou a Copa”. Alheio ao erro grotesco do juiz e às teorias da conspiração, Neymar foi decidido para a bola. Bateu forte. No canto. O goleiro croata ainda rebateu. Mas a Brazuca morreu no fundo da rede. Vira-virou.

Neymar confirmava ser “O Cara”. Estreia inspirada. Mas a seleção ainda passaria por bons sustos até que, aos 45 minutos do segundo tempo, Oscar, depois de mais um lance brigado no meio campo, arrancou contra dois defensores até a entrada da grande área. Puxou para o lado. Surpreendeu o goleiro ao chutar de biquinho. No cantinho. 3 a 1. Fim. Os pouso-alegrenses foram para as ruas comemorar. Eufóricos, pintados, roucos. Envolvidos na bandeira nacional. E o Brasil, nesta quinta-feira (12), voltou a ser o país do futebol.

sábado, 14 de junho de 2014

Pelas razões certas

Boa parte dos brasileiros foi condenada à indigência desde que os primeiros índios avistaram as 3 caravelas e 10 naus de Cabral. Da previsível submissão da cultura indígena, da miscigenação que se seguiu e da escravização prolongada dos negros nasceu o brasileiro médio. Herdamos a burocracia perversa dos portugueses e o caráter duvidoso de Macunaíma. Ao menos é o que nos contam os livros de história brasileira, que nunca conseguiram disfarçar sua predileção pelo folclórico, mais exuberante e romântico que a realidade crua. E como se diz que o Brasil é um país que não existe, na falta de narrativa melhor, destrinchamos sua realidade com mais eficiência na ficção, às vezes também no jornalismo, mas em sua vertente literária. Nossos verdadeiros heróis narrativos, porém, não chegaram a sobreviver à overdose do folclorismo histórico e, poucas vezes, olhamos para o Brasil de fato. Passamos perto com Euclides da Cunha, João do Rio, o realismo de Graciliano Ramos e a genialidade do pedagógico Paulo Freire, que não foi jornalista nem ficcionista, mas narrou o Brasil para os excluídos, incluindo estes na história. Todos eles, a seu modo, deixaram de lado a idealização narrativa para apontar os problemas de fato.

No mar de sertanejos revoltos de Euclides, nos retratos visceralmente poéticos dos morros cariocas de João do Rio, na factual ficção de Graciliano e no desespero comovente de Freire por erradicar a ignorância alfabética brota a constatação de um incômodo óbvio ululante: fomos indigentes por cinco séculos e ainda somos em boa medida por nosso analfabetismo funcional, por nosso falso moralismo, herdado dos jesuítas, que nos fez uma nação católica, e pelo comodismo acovardado de nossa classe média.

Mas eis que alguém bradou, ali mesmo, não muito distante do Ipiranga e suas margens turvas: "O gigante acordou!". Finalmente ameaçávamos nos libertar dessa pecha de mau-caráter inofensivo e boa praça. Mas quando fazemos isso, advinha, fazemos pelas razões erradas. Relembre as manifestações de junho e sua pobreza cognitiva. Queremos "Mais Saúde", "Mais Educação", "Abaixo a Corrupção". Ora, que grande novidade há nisso? Esses são slogans repetidos por nossos líderes desde a Nova República. Não se trata de exigir genialidade da massa, apenas da constatação de que finalmente fomos para a rua indignados e, veja só, não tínhamos a mais vaga noção de onde vinha essa insatisfação. Não lemos, não interpretamos e não tínhamos como acessar conteúdo para transliterar nossos sentimentos em relação a uma narrativa que desconhecemos.

Pergunte a um conhecido que participe de qualquer um dos movimentos anticopa, antigoverno ou "antitudooqueestáaí" - na mais confessa vulgarização das inúmeras definições propostas para o "Inverno Brasileiro" - quanto o governo de sua cidade investe em educação? E em saúde? Cumpre o mínimo constitucional? Quais os problemas de fato desses dois setores onde você mora? Faz-se alguma coisa para corrigi-lo?

Com sorte, ele pode ter lido em algum jornal que cobria as manifestações uma dessas informações. Mas com absoluta certeza não terá as demais porque nunca se preocupou com isso. Brasileiro não dá a mínima para essas coisas. Não tem saco. "Político é tudo ladrão mesmo!". Nem mesmo a minoria reduzida de jovens politizados que deram origem aos movimentos têm algum conhecimento aprofundado das políticas públicas aplicadas no país. O que é uma pena. Quem sabe onde chegaríamos, mobilizados que estávamos, guiados por lideranças bem informadas?

Não duvido que enfim acordamos. Mas é preciso reconhecer que existe uma lacuna narrativa histórica da qual é preciso dar conta antes de declarar a extinção #detudoissoqueestaai. Sob pena de reescrever capítulos já conhecidos de nossa longa indigência. Podemos começar nos perguntando por que fomos indigentes por tanto tempo. A quem interessava e a quem interessa reeditar capítulos passados? Que fatores confluíram para o despertar dessa consciência coletiva? Se por tanto tempo nos omitiram o Brasil de fato, podemos confiar na narrativa que ora nos apresentam? São intrigantes e obrigatórias essas questões. O Brasil passará por uma série de transformações. Fará isso porque os brasileiros já decidiram e por que caminhamos até esse ponto, que é de distensão. Mas que seja uma transformação de fato, pelos motivos certos. Não dá para escolher como a história continua sem conhecer seus pretextos e contextos. Depois de um cochilo histórico, acordar é apenas um primeiro passo.