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sábado, 14 de junho de 2014

Pelas razões certas

Boa parte dos brasileiros foi condenada à indigência desde que os primeiros índios avistaram as 3 caravelas e 10 naus de Cabral. Da previsível submissão da cultura indígena, da miscigenação que se seguiu e da escravização prolongada dos negros nasceu o brasileiro médio. Herdamos a burocracia perversa dos portugueses e o caráter duvidoso de Macunaíma. Ao menos é o que nos contam os livros de história brasileira, que nunca conseguiram disfarçar sua predileção pelo folclórico, mais exuberante e romântico que a realidade crua. E como se diz que o Brasil é um país que não existe, na falta de narrativa melhor, destrinchamos sua realidade com mais eficiência na ficção, às vezes também no jornalismo, mas em sua vertente literária. Nossos verdadeiros heróis narrativos, porém, não chegaram a sobreviver à overdose do folclorismo histórico e, poucas vezes, olhamos para o Brasil de fato. Passamos perto com Euclides da Cunha, João do Rio, o realismo de Graciliano Ramos e a genialidade do pedagógico Paulo Freire, que não foi jornalista nem ficcionista, mas narrou o Brasil para os excluídos, incluindo estes na história. Todos eles, a seu modo, deixaram de lado a idealização narrativa para apontar os problemas de fato.

No mar de sertanejos revoltos de Euclides, nos retratos visceralmente poéticos dos morros cariocas de João do Rio, na factual ficção de Graciliano e no desespero comovente de Freire por erradicar a ignorância alfabética brota a constatação de um incômodo óbvio ululante: fomos indigentes por cinco séculos e ainda somos em boa medida por nosso analfabetismo funcional, por nosso falso moralismo, herdado dos jesuítas, que nos fez uma nação católica, e pelo comodismo acovardado de nossa classe média.

Mas eis que alguém bradou, ali mesmo, não muito distante do Ipiranga e suas margens turvas: "O gigante acordou!". Finalmente ameaçávamos nos libertar dessa pecha de mau-caráter inofensivo e boa praça. Mas quando fazemos isso, advinha, fazemos pelas razões erradas. Relembre as manifestações de junho e sua pobreza cognitiva. Queremos "Mais Saúde", "Mais Educação", "Abaixo a Corrupção". Ora, que grande novidade há nisso? Esses são slogans repetidos por nossos líderes desde a Nova República. Não se trata de exigir genialidade da massa, apenas da constatação de que finalmente fomos para a rua indignados e, veja só, não tínhamos a mais vaga noção de onde vinha essa insatisfação. Não lemos, não interpretamos e não tínhamos como acessar conteúdo para transliterar nossos sentimentos em relação a uma narrativa que desconhecemos.

Pergunte a um conhecido que participe de qualquer um dos movimentos anticopa, antigoverno ou "antitudooqueestáaí" - na mais confessa vulgarização das inúmeras definições propostas para o "Inverno Brasileiro" - quanto o governo de sua cidade investe em educação? E em saúde? Cumpre o mínimo constitucional? Quais os problemas de fato desses dois setores onde você mora? Faz-se alguma coisa para corrigi-lo?

Com sorte, ele pode ter lido em algum jornal que cobria as manifestações uma dessas informações. Mas com absoluta certeza não terá as demais porque nunca se preocupou com isso. Brasileiro não dá a mínima para essas coisas. Não tem saco. "Político é tudo ladrão mesmo!". Nem mesmo a minoria reduzida de jovens politizados que deram origem aos movimentos têm algum conhecimento aprofundado das políticas públicas aplicadas no país. O que é uma pena. Quem sabe onde chegaríamos, mobilizados que estávamos, guiados por lideranças bem informadas?

Não duvido que enfim acordamos. Mas é preciso reconhecer que existe uma lacuna narrativa histórica da qual é preciso dar conta antes de declarar a extinção #detudoissoqueestaai. Sob pena de reescrever capítulos já conhecidos de nossa longa indigência. Podemos começar nos perguntando por que fomos indigentes por tanto tempo. A quem interessava e a quem interessa reeditar capítulos passados? Que fatores confluíram para o despertar dessa consciência coletiva? Se por tanto tempo nos omitiram o Brasil de fato, podemos confiar na narrativa que ora nos apresentam? São intrigantes e obrigatórias essas questões. O Brasil passará por uma série de transformações. Fará isso porque os brasileiros já decidiram e por que caminhamos até esse ponto, que é de distensão. Mas que seja uma transformação de fato, pelos motivos certos. Não dá para escolher como a história continua sem conhecer seus pretextos e contextos. Depois de um cochilo histórico, acordar é apenas um primeiro passo.

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