Um trecho da Avenida Doutor Lisboa amanheceu fechado nesta quinta-feira (12). Era o início dos
preparativos de um dos eventos criados na cidade para que os pouso-alegrenses pudessem acompanhar o primeiro jogo do Brasil na Copa. Mas muitos motoristas ficaram irritados com a medida. Algumas horas depois, no entanto, a situação já era mais tranquila. Pouso Alegre começava a entrar no clima da Copa do Mundo. A tensão política e social atravessada pelo país era mais e mais abafada a medida que o início do jogo se aproximava. Na TV, iniciava a festa de abertura. As ruas começavam a se esvaziar. Bares, casas de shows que organizaram eventos para o jogo recebiam os primeiros clientes. Famílias e amigos se reuniam em seus pontos de encontro. Olho grudado na tela da TV. Por 90 minutos, o Brasil seria de novo o país do futebol, vivendo a magia de uma Copa do Mundo realizada em solo tupiniquim. Será? E é como se fosse a primeira vez. Em 1950, pouquíssimas pessoas acompanharam. A TV só havia chegado ao Brasil um ano antes. Ainda não éramos campeões do mundo. Muito menos conhecidos como habitantes da terra do futebol. Não existia internet, redes sociais, nem brasileiros mobilizados para protestar nas ruas.
Por décadas, o futebol foi considerado o esporte onde o Brasil se destacava como potência mundial. Mas, agora, só isso não basta. Nem por isso, entretanto, o país deixou de ter orgulho de sua seleção. Não deixou de torcer pelo escrete. Sentimento visto à flor da pele no jogo nervoso contra a Croácia. A cada bola dividida e ganha. Cada jogada de perigo, contra ou a favor. As milhares de pessoas que acompanhavam a partida de estreia na Avenida Doutor Lisboa suspiravam ansiedade e alívio. Surpreendida pelo gol adversário, a torcida se calou. O suspiro já não vinha. A tensão irradiava pressão pelos músculos e anunciava a tragédia. Já convencidos de que o país não soube organizar o evento, aliás “deveríamos mesmo tê-lo organizado?”. Muitos acham que não. Com tantos problemas por serem resolvidos na saúde, na educação, no transporte público. Nossos problemas de infraestrutura... Perdemos tantos anos planejando um evento padrão FIFA. Mas a raça de Oscar, a empatia de Neymar com a bola... O nosso camisa 10 recebeu o presente do armador, conduziu a bola como se rabiscasse um rascunho de uma tela prestes a ser preenchida em cores, bateu rumo a meta. Chute certeiro. Sorrateiro. Venceu o gigante Croata que guardava a baliza. A redondinha beijou a trave e entrou. Voltávamos a ser o país do futebol.
O primeiro tempo se encerrou com domínio brasileiro. A tensão teimava em incomodar os torcedores que lotavam a avenida. Mas uma certa confiança reaparecia. Brasil, potência do futebol. E o gol foi de Neymar. Nossa joia mais valiosa. Não parece um enredo perfeito? E tem mais. Em 2002, quando chegamos ao penta. No primeiro jogo, contra a dura Turquia, também saímos perdendo. Viramos. Não dá pra torcer sem ser superstição. E o grande dogma do torcedor é esse. Se deu certo uma vez, vai dar sempre.
O segundo tempo começou como uma reprise do primeiro. Apesar de melhor postada em campo, a seleção continuava ansiosa. Os passes errados se seguiam. A etapa derradeira já se aproximava do meio, quando Fred, em uma bola cruzada na área, se jogou como de costume e pelo oportunismo de sempre. Entre dois zagueiros, porém. O juiz deu pênalti. O replay mostrou que os croatas pouco encostaram em Fred. Murmúrios e balbucias “a Dilma já comprou a Copa”. Alheio ao erro grotesco do juiz e às teorias da conspiração, Neymar foi decidido para a bola. Bateu forte. No canto. O goleiro croata ainda rebateu. Mas a Brazuca morreu no fundo da rede. Vira-virou.
Neymar confirmava ser “O Cara”. Estreia inspirada. Mas a seleção ainda passaria por bons sustos até que, aos 45 minutos do segundo tempo, Oscar, depois de mais um lance brigado no meio campo, arrancou contra dois defensores até a entrada da grande área. Puxou para o lado. Surpreendeu o goleiro ao chutar de biquinho. No cantinho. 3 a 1. Fim. Os pouso-alegrenses foram para as ruas comemorar. Eufóricos, pintados, roucos. Envolvidos na bandeira nacional. E o Brasil, nesta quinta-feira (12), voltou a ser o país do futebol.

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